Na galeria E1 do Presídio Central de Porto Alegre , um projeto social tenta ajudar detentos na busca pela liberdade. Não das celas, mas das drogas. Todas as sextas-feiras, um grupo de 48 homens se encontra com a advogada Carmela Grüne, de 32 anos, e realiza atividades culturais que incluem até uma oficina de cinema. Eles são dependentes químicos em tratamento e finalizam o roteiro de um curta-metragem a ser rodado dentro da casa a partir de um financiamento coletivo.
Considerado o maior sistema de detenção do Rio Grande do Sul, o presídio abriga atualmente 4.378 detentos, embora a capacidade máxima seja de 2.069. De acordo com a Superintendência dos Serviços Penitenciários do RS (Susepe), cerca de 60% dos presos do local são por tráfico de drogas. Apesar de não receber a classificação de penitenciária por ser, teoricamente, um local para presos provisórios, há condenados cumprindo pena nas celas.
A galeria E1, onde é desenvolvido o projeto que deu origem a um documentário (veja a íntegra do trabalho dos presos no vídeo ao lado), contrasta com os outros pavilhões. Enquanto ali o clima é de cooperação, nas outras galerias do complexo de três andares o impacto da superlotação é evidente.
A poucos metros da E1, mais de 12 pessoas ocupam uma cela projetada para receber quatro. Em situação precária, detentos têm acesso a drogas e telefones celulares. As paredes são descascadas, com buracos e há problema de infiltração, o que acentua o mau cheiro do local. Os presos têm de revezar os colchões para dormir. Os problemas de estrutura fizeram com que a Corte Interamericana de Direitos Humanos, tribunal vinculado à Organização dos Estados Americanos (OEA), exigisse melhorias na casa.
A realidade da galeria E1 é bem diferente: nas 12 celas destinadas aos presos-pacientes, os beliches são divididos entre os homens em tratamento. Alimentos são guardados em pequenas prateleiras de madeira e até livros fazem parte da decoração.
Em uma das celas, televisões, ventiladores, roupas e um som ocupam o espaço. O banheiro da galeria está sendo reformado pelos próprios moradores após a doação dos materiais para a obra. E em uma mesa no corredor, eles passam o tempo jogando cartas.
É na sala comum da E1 que o contraste se torna ainda mais evidente. Uma parede amarela foi grafitada com uma mensagem de boas-vindas logo na entrada, enquanto as outras são forradas com fotos e cartazes dos trabalhos do projeto Direito no Cárcere. Nas imagens, os presos sorriem. A geladeira comum, pequena e com alguns problemas de refrigeração, guarda as refeições, todas feitas por eles mesmos.
Nos 'quartos', presos do E1 guardam pertences e tentam manter local limpo (Foto: Luiza Carneiro/G1)
O acesso a esse novo mundo, no entanto, exige comprometimento e disposição de abandonar os antigos hábitos. Para se mudar para a galeria de tratamento é preciso se voluntariar e pedir permissão à Justiça. Se aprovada a solicitação, os novos moradores passam por um hospital antes da transferência.
Na sala comum, detentos têm acesso a livros, (Foto: Luiza Carneiro/G1)
“Eles passam 21 dias em tratamento, precisam demonstrar interesse e vontade. Na galeria, têm acompanhamento psicológico, psiquiátrico, atendimento social e participam dos projetos sociais e de entidades religiosas”, explicou ao G1 o diretor do presídio, tenente-coronel Osvaldo Luis Machado da Silva.
As dificuldades durante o tratamento contra o vício são partilhadas pelos 48 homens que vivem no local. Muitas vezes, a abstinência faz com que alguns tenham vontade de voltar para o “fundo”, como se referem às outras galerias do Central. Neste momento, o clima de companheirismo e o ambiente mais leve são aliados dos presos.
Wagner Zandavalle, de 34 anos, conta que além de mais higiênico e com população menor, a galeria E1 é habitada também por pessoas que se respeitam. "É fácil criar um espaço, colocar 50 pessoas e dizer: 'aqui vocês não vão mais usar drogas'. Temos que ter a nossa união", afirma Zandavalle. Segundo ele, nas últimas semanas, um dos colegas apareceu com drogas e foi criticado.
Estar no local também auxilia na revisão da pena pelo Judiciário. Ali, eles têm acesso a uma biblioteca com livros que vão desde Paulo Coelho e John Grishman, passando por livros espíritas e obras da área de direito ficam acessíveis. Depois da leitura, os presos precisam escrever um texto resumindo as páginas e encaminhar ao juiz responsável por seus processos.
Na área comum, presos têm acesso a livros (Foto: Luiza Carneiro/G1)
Do lado de fora do Presídio Central, a população pode conhecer a rotina dos presos por meio de um canal de vídeos no Youtube. O Vlog Liberdade  mostra imagens gravadas por eles mesmos.
Foi lá que o escritor Ricardo Kroeff assistiu aos vídeos e doou livros e camisetas de futebol para a realização de um Gre-Nal entre os ocupantes da galeria. Junto com o presente, enviou uma carta contando a sua história. O papel foi afixado no salão comum da galeria e lido em voz alta.
"Vocês já jogaram bola com uma camiseta que fez vocês jogarem bem melhor porque sonharam que eram daquele time ou que eram aquele jogador? Pois é, isso acontece, é maravilhoso e rola também com esses livros que mandei. Tem vidas ali dentro. Mas estão presas, e cabe a vocês libertarem elas ou não. Procurem bem que tem coisas lá, prometo. Liberdade é poder escolher suas prisões", escreveu no texto.
Para Evilton Vizeu Candiota, de 42 anos, sair do mundo das drogas e participar das atividades dá também uma perspectiva de futuro. Responsável pelo grupo de negócios, montou um plano de produção e vendas de diversos objetos a serem confeccionados dentro do Central.
“Queremos fazer sacolas descartáveis, caixas de presentes, velas e sabonetes para vender em feiras de economia solidária”, empolga-se.
Da mesma forma, Felipe Loureiro Martins, de 32 anos, encontrou um jeito de passar o tempo. Quando foi preso tinha apenas a 6ª série completa. Hoje, já completou o segundo grau, possui um curso técnico e se dedicou a ler todo o Código Penal e reescrevê-lo através do seu ponto de vista. Todo o esforço foi realizado dentro da cadeia. “O Código Penal foi escrito para apenas uma parte da população entender. Eu reescrevi com o meu ponto de vista, de dentro da prisão”, finaliza.
Curta-metragem abordará sentimentos negativos dentro da prisão
Jai Júnior é o produtor do curta-metragem que será (Foto: Luiza Carneiro/G1)
Entre as atividades promovidas pelo projeto Direito no Cárcere, uma oficina de cinema ocorre desde janeiro deste ano. Com a ajuda do produtor Jai Júnior, os detentos estão criando um roteiro coletivo para a gravação de um curta na galeria E1. A ideia do curta, segundo ele, é mostrar por meio da ficção as ansiedades dos dependentes químicos.
“Estou há um ano e meio voluntariando no projeto. Trabalho em uma produtora audiovisual e percebi neles a vontade de fazer um filme. Queremos quebrar esses paradigmas da visão da prisão e do prisioneiro”, fala Jai Júnior.
O enredo conta a história de um homem que quer sair do local e voltar para as galerias que não oferecem tratamento. O conflito interno o leva a enxergar as virtudes da vida, como a coragem, a esperança e a fé, e também as maldades, travestidas na figura do diabo.
O protagonista será vivido por Leandro Martins, de 36 anos, com uma pena de 19 anos a ser cumprida no Presídio Central. “Já temos o texto quase feito. Este preso vai querer sair do projeto, mas nos outros lugares há droga, telefone. Aqui ele está mudando”, explica, sobre o enredo da trama.
Carmela ao lado dos detentos no Presídio Central (Foto: Jai Júnior/Jornal Estado de Direito)
Heber Luis Trindade Moreira, de 32 anos, é o idealizador do argumento. “O personagem vai fraquejar. Queremos mostrar como é lidar com a abstinência. Cada cela representará uma virtude”, conta Moreira. Ele foi preso há um ano e 11 meses e cumpre pena de seis anos por tráfico de drogas. “Um apoiando o outro, a gente consegue vencer”, completa.
A ideia é colocar o projeto em um site de financiamento coletivo para arrecadar fundos para confeccionar os figurinos, trazer pessoal e equipamentos adequados. Todos os papéis serão interpretados pelo grupo. “Acredito que até abril a gente consiga finalizar o trabalho conjunto”, projeta o produtor Jai Júnior.
Além da oficina de cinema, a advogada Carmela promove atividades inspiradas em quatro pilares: neurociência, direito, artes e tecnologia, que ajudam na reinserção dos detentos na sociedade. Para ela, a criação do projeto é um dos passos para popularizar ainda mais a cultura jurídica e o entendimento do que é direito.
“Temos uma política pública muito distante do cidadão comum. Aqui no presídio 70% não tem o ensino fundamental. E isso gera falta de empoderamento, de cidadania, gera a violência, baixa auto-estima, o desvio do caminho”, reitera a voluntária.
Junto ao projeto no Central, ela assina o Jornal Estado de Direito, realiza palestras sobre o tema e atua em outros programas sociais. “Quando a gente coloca uma plataforma de expressão para os presos se comunicarem, a gente tá popularizando uma cultura. Ali eles são protagonistas. É um paradigma: no cárcere eles se expressarem mais do que na rua”, avalia. "Eles têm uma câmera, livros e muita vontade de aprender e compartilhar".
Para Carmela, a oportunidade de visualizar e desenvolver o Direito no Cárcere traz também um benefício pessoal: a sensação de dever cumprido. "A sensação é de humanidade, amor. Quando eu cheguei eles eram fechados, de braços cruzados, hoje estão todos de braços abertos. Eu ganho isso imediatamente", completa.
Entrada da galeria E1 no Presídio Central de Porto Alegre (Foto: Luiza Carneiro/G1)